Liga Portugala Jornada08
9–12 de outubro de 2026

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Um projeto para 12 anos durou cerca de um: quem é Duarte Gomes e onde nasceu a rutura

O antigo árbitro internacional regressou à Federação para separar a direção técnica da gestão política da arbitragem. Saiu depois de um mês a tentar esclarecer acontecimentos que destruíram a confiança em Luciano Gonçalves e afetaram também a relação profissional com Pedro Proença.

Quando Duarte Gomes regressou à Federação Portuguesa de Futebol, o horizonte que tinha pela frente media-se em ciclos, não em meses. O projeto da Direção Técnica Nacional de Arbitragem fora pensado para 12 anos, três períodos de quatro, com um primeiro ano destinado a montar estruturas, aproximar a formação da base ao topo e criar uma linha técnica comum. Cerca de um ano depois, o próprio Duarte concluiu que já não tinha condições pessoais e profissionais para continuar.

A saída ganha outra dimensão quando se olha para o percurso que o levou até ali. Duarte queria ser futebolista, entrou na arbitragem, precisou de seis épocas para alcançar a elite portuguesa e quatro anos depois tornou-se internacional. A carreira ao mais alto nível prolongou-se durante quase duas décadas, até as lesões o empurrarem para outra relação com o jogo. Passou a explicar arbitragem publicamente, tornou-se comentador, Embaixador da Ética Desportiva e desenvolveu o Projeto Kickoff, orientado para a formação e para a aproximação da figura do árbitro ao público.

O regresso à FPF colocava-o novamente dentro da arbitragem, mas numa função diferente daquela que exercera em campo e diferente também da presidência do Conselho de Arbitragem. Duarte não era eleito. A missão que descreve era essencialmente técnica: trabalhar com os árbitros, treiná-los, acompanhar o recrutamento, uniformizar métodos e construir uma estrutura nacional que começasse nos conselhos distritais e regionais e chegasse ao principal escalão.

A gestão institucional e política da arbitragem cabia ao Conselho presidido por Luciano Gonçalves. Era com Luciano que Duarte tinha de trabalhar lado a lado e era precisamente aí que existia, antes do conflito, uma relação que o antigo diretor técnico define como muito boa, com cumplicidade pessoal e profissional.

Essa proximidade é importante para compreender o que aconteceu depois. Quando Duarte recebeu de Hélder Malheiro informação que considerou perturbadora sobre nomeações conhecidas antecipadamente e sobre uma mensagem atribuída ao presidente do Conselho de Arbitragem, não partiu imediatamente para uma acusação. Conhecia Luciano há muitos anos, considerava-o uma pessoa séria e tentou encontrar uma explicação que tornasse coerente aquilo que lhe estava a ser apresentado.

Durante cerca de um mês, teve três reuniões pessoais com Luciano. Duarte conta que insistiu na possibilidade de ter existido um erro, um passo mal dado ou uma explicação que ainda não estivesse a ver. Queria, nas suas palavras, perceber e corrigir. A resposta que diz ter recebido foi sempre a negação de qualquer transmissão de nomeações a dirigentes ou de qualquer comportamento ilícito ou eticamente inadequado.

O processo teve o efeito contrário ao pretendido. Quanto mais Duarte tentou esclarecer, mais se aprofundou a desconfiança. Acabaria por definir a quebra como absolutamente irreparável e, três meses depois da saída, foi ainda mais longe: afirmou que não voltará a trabalhar com Luciano Gonçalves.

Pedro Proença ocupa um lugar diferente nesta história. Duarte diz que os dois são amigos há cerca de 35 anos e que conseguiram separar durante décadas a relação pessoal das funções institucionais. A amizade, segundo Duarte, permanece. A relação profissional, não.

O antigo diretor técnico considera que o presidente da FPF tomou decisões legítimas perante o caso, mas admite que teria procedido de forma diferente. Por essa razão, diz não ver como provável uma nova relação profissional entre ambos. Proença foi sendo informado das diligências e, quando Duarte lhe expôs o problema, pediu-lhe que o colocasse formalmente por escrito para que pudesse ter seguimento.

Foi isso que aconteceu com a renúncia.

Duarte diz que não saiu para disputar o lugar de Luciano, que nunca ambicionou presidir ao Conselho de Arbitragem e que o trabalho técnico era, na realidade, o trabalho que queria fazer. A decisão custou-lhe estabilidade profissional, financeira e familiar e significou abandonar aquilo que chama o seu trabalho de sonho.

A dimensão humana da rutura nasce desse contraste. Duarte não deixou um projeto que considerava esgotado. Deixou um projeto ainda no chamado ano zero, concebido para durar mais de uma década, porque concluiu que não conseguia desenvolver uma função baseada em confiança institucional ao lado de alguém em quem dizia ter deixado de acreditar.