Portugal venceu a Dinamarca por 4-2 no primeiro jogo disputado depois de Cristiano Ronaldo abandonar a concentração. João Cancelo, Gonçalo Ramos, Vitinha e João Félix marcaram em Copenhaga e deram à Seleção a terceira vitória em três jornadas da Liga das Nações. O resultado não responde à pergunta sobre o futuro internacional do capitão, mas acrescenta um facto que ainda não existia quando essa pergunta surgiu: Portugal já voltou a competir sem Ronaldo e ganhou.
Gonçalo Ramos voltou a ocupar a posição que estivera no centro do conflito dos dias anteriores e marcou o segundo golo português. Jorge Jesus tinha explicado que as escolhas dependeriam das características necessárias em cada jogo e, depois de deixar Ronaldo os 90 minutos no banco na Noruega, manteve Ramos no onze frente à Dinamarca. A vitória não demonstra que Cristiano deixou de ter utilidade competitiva nem permite tirar conclusões definitivas a partir de uma partida. Demonstra que a Seleção conseguiu dar continuidade imediata ao seu percurso depois da saída do capitão.
É neste ponto que a situação de Ronaldo precisa de ser separada do que já aconteceu dentro do campo. Continua a existir a indicação, inicialmente avançada na imprensa portuguesa, de que o jogador decidiu não voltar a representar Portugal e considera essa decisão irreversível. Se essa informação se confirmar, o encontro com o País de Gales, em Alvalade, terá sido a sua última internacionalização. Até ao final desta quinta-feira, porém, Cristiano ainda não anunciou formalmente o fim da carreira internacional.
A mensagem em que comunicou a saída do estágio foi precisa no que confirmou e deixou o resto em aberto. Ronaldo afirmou que tomou a decisão depois da conferência de imprensa de Jorge Jesus e no seguimento de uma conversa com Pedro Proença. Disse que explicaria «a seu tempo» as razões da saída da equipa nacional e desejou sorte a Portugal e aos companheiros. Não escreveu que recusará futuras convocatórias nem declarou encerrado o percurso iniciado em 2003.
A Federação Portuguesa de Futebol também não o fez. O comunicado federativo confirmou que Ronaldo deixara a concentração e que a preparação prosseguiria com os restantes convocados. Não anunciou uma retirada, não declarou que o capitão deixara de fazer parte da Seleção e não definiu publicamente o que acontecerá numa convocatória futura.
Jorge Jesus escolheu igualmente adiar a discussão. Antes do encontro com a Dinamarca, afirmou estar de consciência tranquila e disse que haveria tempo para voltar ao assunto depois do jogo com a Noruega. Até lá, a prioridade declarada do selecionador é competitiva. A próxima partida, no Dragão, tornou-se assim também a fronteira temporal para os esclarecimentos que a estrutura ainda não prestou sobre a rutura.
Entretanto, alguns dos sinais mais visíveis da ausência de Ronaldo já começaram a ser preenchidos pela rotina competitiva. Rafael Leão vestiu a camisola 7 frente à Dinamarca, mas a atribuição não deve ser transformada numa declaração institucional de sucessão: com 23 jogadores inscritos, a numeração da ficha de jogo tem de ocupar a sequência regulamentar disponível. O número mudou de jogador naquele encontro; o que isso significará numa convocatória futura continua em aberto.
Também permanece sem resolução pública a dimensão disciplinar. O regulamento da FPF prevê sanção para o abandono injustificado de atividades da Seleção, mas essa palavra é decisiva. Ronaldo afirmou que falou com Pedro Proença antes de sair. Sem saber se a partida foi autorizada, aceite ou apenas comunicada, não é possível concluir que estão preenchidos os pressupostos para uma punição.
A vitória em Copenhaga acrescenta, contudo, uma diferença importante em relação a crises anteriores. Durante grande parte da carreira de Ronaldo, qualquer problema em torno do capitão tinha uma consequência competitiva imediata porque ele era também o centro desportivo da equipa. Agora as duas dimensões começam a separar-se. Portugal venceu na Noruega com Cristiano no banco e voltou a ganhar na Dinamarca já sem ele na concentração. Isso reduz a dependência dentro do campo; não decide por si só se a relação institucional pode ser reconstruída.
Também não transforma o 4-2 numa resposta moral ao conflito. Quatro golos não provam que Jorge Jesus tenha tido razão em todos os passos que conduziram à rutura, da mesma forma que o estatuto de Ronaldo não demonstra que o treinador devesse garantir-lhe minutos ou titularidade. O jogo resolveu um problema competitivo daquela noite. O conflito entre o jogador, o selecionador e a Federação continua por esclarecer.
O ponto mais avançado da história é, portanto, mais preciso do que anunciar o fim. Existe informação de que Ronaldo não pretende regressar. Existe uma saída voluntária de um estágio em curso. Existe uma Federação que ainda não declarou encerrada a ligação. Existe um selecionador que adiou a explicação para depois da Noruega. E existe uma equipa que, entretanto, continuou a jogar e a ganhar.
A próxima mudança factual já não depende de interpretar mais sinais. Depende de uma declaração ou de uma decisão: Ronaldo confirmar que não volta; a FPF e Jorge Jesus explicarem se ainda existe caminho para uma convocatória futura; ou os acontecimentos posteriores tornarem a rutura efetivamente definitiva. Até lá, a carreira internacional de Cristiano Ronaldo está sem confirmação de continuidade, mas também sem anúncio formal de fim.















