Em 24 horas, a conta oficial da Seleção Nacional no Instagram perdeu 885.587 seguidores. Às 19h45 de quarta-feira tinha 25.004.030; à mesma hora desta quinta-feira estava nos 24.118.443. A descida não permite concluir que cada uma dessas pessoas deixou de seguir Portugal exclusivamente por causa da saída de Cristiano Ronaldo, mas transforma a rutura num fenómeno que já pode ser medido: quase 900 mil utilizadores desapareceram da audiência direta da Seleção num único dia.
O número ganha outra dimensão quando é colocado ao lado das próprias contas da Federação Portuguesa de Futebol. No orçamento consolidado para 2025/26, a FPF previa receitas superiores a 146 milhões de euros. Dentro desse universo, 54,932 milhões estavam inscritos em direitos de transmissão, publicidade e patrocínios. A rubrica de outros contratos de publicidade, televisão e licenciamento somava 34,655 milhões e atribuía 20,175 milhões à Seleção Nacional A.
Estes 20,175 milhões não são o valor de Cristiano Ronaldo para a Federação e não estão automaticamente em risco. O orçamento não permite separar quanto foi contratado por causa do capitão, quanto depende da presença dele, quanto depende apenas da equipa nacional ou que cláusulas podem existir em cada acordo. O dado serve para estabelecer a escala correta da pergunta: uma parte relevante da máquina comercial da FPF está diretamente ligada ao produto Seleção A, precisamente o produto cuja audiência internacional teve Ronaldo como figura dominante durante mais de duas décadas.
Essa diferença entre o alcance do jogador e o alcance da instituição já tinha sido medida antes da rutura. Durante os 47 dias analisados no Mundial de 2026, um estudo da NOSSA Sports e da Felton estimou em 85,2 milhões de euros o valor de audiência produzido por 29 publicações de Cristiano Ronaldo. As 565 publicações da Seleção Nacional ficaram nos 68,1 milhões. Os valores não representam dinheiro recebido pelo jogador ou pela FPF; são uma estimativa económica da atenção gerada. A comparação mostra, ainda assim, uma assimetria difícil de ignorar: um indivíduo publicou quase vinte vezes menos e gerou um valor estimado de audiência superior ao de toda a atividade digital da equipa nacional.
O mesmo estudo ajuda a perceber por que razão esta discussão não se limita ao mercado português. Apenas 14% da audiência ativa identificada para a Seleção estava em Portugal e cerca de três quartos encontravam-se fora do espaço lusófono. A dimensão comercial da equipa nacional depende, portanto, de uma audiência internacional que não acompanha Portugal apenas por proximidade geográfica ou linguística. É nesse espaço global que a capacidade individual de Ronaldo para transportar atenção se torna economicamente mais relevante.
A perda de quase 900 mil seguidores em 24 horas é o primeiro sinal concreto dessa exposição depois da saída. Não é ainda uma perda contabilística e não permite converter seguidores em euros. Também não existe, até ao momento, informação pública de que algum patrocinador tenha rescindido, renegociado ou ameaçado formalmente alterar um contrato com a FPF por causa de Ronaldo.
Existe, porém, um risco comercial identificado por especialistas do setor. Carlos Coelho, presidente da consultora Ivity Brand Corp, afirmou à Lusa que patrocinadores podem considerar alterados os pressupostos que estiveram na origem dos contratos e pedir a sua revisão, chegando no limite ao cancelamento. A afirmação é uma avaliação profissional sobre o risco, não a confirmação de que isso esteja a acontecer. Sem acesso aos contratos, não é possível saber se a presença de Cristiano constitui condição formal, fator de valorização ou apenas parte do contexto comercial em que os acordos foram negociados.
A escala da marca pessoal ajuda a explicar por que essa dúvida existe. O IPAM avaliou em 2025 a marca Cristiano Ronaldo em 850 milhões de euros através de um modelo que cruza 28 variáveis, entre receitas, media, redes sociais, palmarés, influência e impacto. Essa avaliação não corresponde ao montante que a Federação perderia se Ronaldo nunca mais jogasse por Portugal. Serve apenas para dimensionar o ativo de notoriedade que deixa de estar automaticamente associado a cada convocatória, jogo e campanha comercial da Seleção.
O contraste com o campo tornou-se ainda mais claro nesta quinta-feira. Portugal venceu a Dinamarca por 4-2 em Copenhaga sem Cristiano Ronaldo. João Cancelo, Gonçalo Ramos, Vitinha e João Félix marcaram e a equipa somou a terceira vitória em três jogos na Liga das Nações. A resposta desportiva pode, portanto, existir sem o capitão. Isso não resolve por si só a questão comercial, porque rendimento competitivo e capacidade de atrair audiência global são variáveis diferentes.
Durante grande parte da carreira de Ronaldo, essas duas dimensões estiveram sobrepostas. O jogador de maior alcance internacional era também uma escolha desportiva evidente. Aos 41 anos, a separação tornou-se concreta: Jorge Jesus pode considerar que outro avançado serve melhor um determinado jogo, enquanto a Federação continua exposta às consequências económicas de reduzir ou perder a presença da figura que mais atenção internacional acrescenta ao produto Seleção.
A FPF ainda não consegue dizer quanto custa essa separação em receitas. Já consegue, porém, medir três coisas diferentes: perdeu 885.587 seguidores em 24 horas; tinha 20,175 milhões de euros orçamentados na época anterior em contratos de publicidade, televisão e licenciamento associados à Seleção A; e sabe, por dados de audiência do Mundial, que Ronaldo conseguia gerar sozinho mais valor estimado de atenção digital do que centenas de publicações da própria Seleção.
Nada disto permite somar os números e anunciar uma fatura. Permite fazer algo mais rigoroso: estabelecer a dimensão da exposição. O custo efetivo só poderá ser medido através da evolução dos contratos comerciais, das audiências, da bilhética, do merchandising e da capacidade da FPF para conservar fora de Portugal a atenção que acompanhava Cristiano Ronaldo.















