Portugal começou o novo ciclo de Jorge Jesus com duas vitórias e duas decisões consecutivas sobre Cristiano Ronaldo que dizem mais sobre o seu fim de carreira do que qualquer discussão em torno dos golos.
Contra o País de Gales, Ronaldo foi titular. Portugal ganhou por 1-0, mas Jorge Jesus retirou o capitão aos 67 minutos e explicou depois porquê: precisava de um jogador com mais energia para pressionar, acelerar a reação defensiva e impedir que os centrais adversários construíssem com conforto. Gonçalo Ramos entrou para cumprir essa função.
Três dias depois, em Oslo, a decisão foi ainda mais clara. Jesus começou com Ramos, deixou Ronaldo no banco e tinha previsto utilizá-lo durante cerca de meia hora. O jogo alterou o plano. Ramos marcou, teve outro golo anulado e continuou a oferecer ao treinador as características que Portugal precisava naquele momento. Ronaldo aqueceu, mas não entrou.
Não foi uma gestão de lesão. Jesus afirmou que Cristiano estava fisicamente disponível para jogar o tempo que o selecionador entendesse. Foi uma escolha de características.
É aqui que começa a verdadeira discussão sobre Ronaldo aos 41 anos.
Durante quase toda a carreira internacional, aquilo que Cristiano oferecia individualmente encaixava naturalmente no que Portugal precisava coletivamente. Tinha explosão para atacar a profundidade, velocidade para repetir movimentos, capacidade de aparecer em várias zonas de finalização, poder físico para disputar duelos e energia para executar sucessivamente a mesma ação.
A inteligência futebolística continua evidente. Ronaldo reconhece espaços, lê movimentos defensivos, sabe antecipar a trajetória de uma bola e conserva um conhecimento da área que não desaparece com a idade.
O problema é que reconhecer uma ação e conseguir executá-la ao ritmo do futebol internacional de topo são coisas diferentes.
Uma equipa que pretende disputar títulos não vive apenas dos momentos em que chega à área adversária. Precisa de reagir imediatamente quando perde a bola, pressionar em conjunto, fechar linhas de passe, acelerar quando recupera, atacar espaço e repetir tudo isso durante o jogo.
Contra Gales, Jesus precisou de trocar Ronaldo precisamente quando quis aumentar esse tipo de comportamento. Contra a Noruega, começou logo com um avançado que lhe oferecia maior intensidade e manteve-o porque o jogo confirmou a escolha.
Nenhuma destas decisões demonstra que Portugal passe automaticamente a ser melhor sem Ronaldo. Dois jogos não permitem essa conclusão.
Mostram outra coisa: já existem necessidades competitivas para as quais Ronaldo deixou de ser a resposta automática.
Essa diferença é estrutural.
Um jogador pode continuar a ser tecnicamente extraordinário e deixar de conseguir executar todas as tarefas que uma determinada estratégia exige. Pode perceber onde deve pressionar e chegar tarde. Pode identificar o espaço a atacar e já não conseguir ganhar o primeiro metro. Pode continuar a antecipar uma jogada e perder a segunda ação porque a recuperação física é mais lenta.
É isso que um selecionador tem agora de avaliar.
Não se trata de decidir se Cristiano Ronaldo ainda é suficientemente bom para pertencer à Seleção. Trata-se de decidir se a equipa deve ser construída de forma a acomodar aquilo que Ronaldo ainda consegue fazer ou se Ronaldo deve passar a ser utilizado apenas quando as necessidades da equipa coincidem com aquilo que ainda consegue oferecer.
Em Oslo, Portugal enfrentou uma seleção que Jesus descrevera como fisicamente intensa, agressiva na pressão e rápida na reação. O treinador escolheu João Félix e Gonçalo Ramos na frente. Portugal venceu por 2-1.
Ronaldo não foi necessário.
Esse é o facto novo.
O maior desafio do fim de carreira de Cristiano não é aceitar que um dia deixará de jogar. É aceitar que esse dia já começou a chegar em parcelas: primeiro 67 minutos, depois um banco, depois um jogo inteiro em que o selecionador olha para a equipa e conclui que não precisa de o colocar.















