O caso Duarte Gomes cresceu para lá dos acontecimentos que provocaram a demissão. Em três meses juntaram-se relatos sobre nomeações de árbitros, mensagens, contactos entre protagonistas, alegados prémios, pressões sobre outros jogos e encontros cuja relevância permanece por demonstrar. O resultado é um dossiê em que factos, versões e suspeitas aparecem muitas vezes lado a lado apesar de não terem o mesmo peso.
O próprio Duarte estabelece essa separação.
O primeiro nível é formado pelos acontecimentos que diz ter considerado suficientemente consistentes para fundamentar a renúncia. Hélder Malheiro contou-lhe que um antigo árbitro assistente antecipara a sua futura nomeação para o Moreirense-Estrela da Amadora e a de Fábio Veríssimo para o Estrela da Amadora-Famalicão. As duas designações acabaram por corresponder ao relato.
Há depois a captura de ecrã da mensagem enviada por Luciano Gonçalves a Malheiro, com uma confirmação curta e emojis associados a silêncio. A existência da comunicação integra o núcleo que Duarte analisou; o seu significado é que permanece disputado.
Na versão que chegou a Duarte, a mensagem estava ligada à possibilidade de Hélder Malheiro continuar mais uma época na arbitragem caso o Estrela da Amadora obtivesse determinado resultado. Luciano apresentou outra explicação: a comunicação relacionava-se com uma eventual nomeação de Malheiro para a final da Taça de Portugal.
A divergência é central porque uma mensagem pode existir e continuar por esclarecer aquilo que estava realmente a confirmar.
O mesmo vale para a origem das nomeações antecipadas. Saber que os nomes foram comunicados antes da divulgação oficial não demonstra automaticamente quem os forneceu. Duarte considera estatisticamente inverosímil que tenham sido dois palpites bem-sucedidos e concluiu pessoalmente que alguém teria acedido a informação reservada. Continua a faltar demonstrar o percurso concreto dessa informação.
Há ainda os contactos ocorridos durante as diligências. Duarte relata que um antigo árbitro assistente tentou contactá-lo segundos depois de uma reunião privada com Luciano e que, pouco depois, o mesmo homem ligou a Hélder Malheiro demonstrando conhecimento das conversas em curso. É um elemento que Duarte considera particularmente perturbador, mas continua a ser necessário distinguir a sucessão temporal de uma prova sobre quem informou quem.
A alegada reunião de Luciano Gonçalves com Paulo Lopo pertence igualmente a este terreno de versões. Duarte afirma que Luciano lhe disse ter ido sozinho falar com o então presidente da SAD do Estrela da Amadora e considerou essa forma de atuação incompatível com as cautelas exigidas pelo caso. O significado e o enquadramento de contactos entre dirigentes continuam a ser matéria que deve ser determinada pela prova e não pela proximidade entre os intervenientes.
Depois existe um segundo universo de histórias que Duarte recusa incorporar na mesma categoria.
Ao longo dos meses surgiram referências a uma eventual verba de um milhão de euros destinada a dirigentes, a alegadas pressões sobre a escolha do árbitro de um FC Porto-Benfica e a outros encontros ou contactos envolvendo protagonistas do processo. Duarte é explícito: esses elementos não integraram os factos inscritos no email de renúncia.
O antigo Diretor Técnico Nacional diz ter recebido mensagens e relatos de várias origens sobre outros episódios, incluindo informação transmitida por árbitros, mas coloca esse material num patamar probatório diferente. Não o apresenta como verdade confirmada e entrega às autoridades a tarefa de verificar se existe alguma substância criminal.
Há também um terceiro ponto que precisa de permanecer separado de todo o resto: os próprios árbitros e os resultados dos jogos.
Duarte não acusa Hélder Malheiro ou Fábio Veríssimo de corrupção, combinação ou favorecimento do Estrela. Pelo contrário, faz questão de defender a integridade dos árbitros, recordando que tiveram boas avaliações e que o clube da Reboleira não venceu os encontros que ficaram associados ao caso.
Isso altera o centro da história. O núcleo inicial não é uma acusação de que dois árbitros tenham sido comprados para produzirem determinados resultados. É uma suspeita sobre circulação de informação reservada, relações institucionais e possíveis tentativas de influência em torno do sistema que decide quem arbitra os jogos.
O estado atual pode, por isso, ser descrito com mais precisão do que a acumulação de todas as suspeitas permite.
Sabe-se que duas nomeações foram conhecidas antecipadamente e depois se confirmaram. Sabe-se que Hélder Malheiro relatou a Duarte Gomes a forma como recebeu essa informação. Sabe-se que existiu uma mensagem de Luciano cujo significado é disputado. Sabe-se que Duarte fez diligências internas, perdeu a confiança no presidente do Conselho de Arbitragem, informou Pedro Proença e se demitiu. Sabe-se que houve um processo disciplinar arquivado e que a matéria entrou também na esfera judicial.
Falta demonstrar quem originou a informação, como circulou, que relações existiram entre os diferentes intervenientes, se houve intenção de condicionar alguém e se algum comportamento configura ilícito criminal.
Para Duarte, a decisão institucional já está fechada. Diz que não voltará a trabalhar com Luciano Gonçalves e considera igualmente improvável voltar a trabalhar profissionalmente com Pedro Proença, apesar de preservar a amizade pessoal com o presidente da FPF.
Para a justiça, a história continua aberta.
É essa diferença que deve permanecer no centro do caso: a consciência de Duarte já produziu uma demissão; a eventual responsabilidade de terceiros só pode ser fixada pela prova.















