Liga Portugala Jornada08
9–12 de outubro de 2026

Jornadas

Navegação principal da época 2026/27.

O Qatar mostrou o custo de retirar estatuto a Ronaldo. Quatro anos depois, o problema mantém-se

Fernando Santos deixou o capitão no banco em 2022 e uma relação de oito anos ficou interrompida. Martínez restaurou-lhe o papel central. Jorge Jesus voltou agora a tomar uma decisão exclusivamente competitiva e a reação chegou novamente para lá do campo.

Cristiano Ronaldo tinha 37 anos quando Portugal descobriu, no Qatar, que retirar-lhe minutos não era apenas substituir um jogador.

Fernando Santos deixou-o fora do onze diante da Suíça nos oitavos de final do Mundial de 2022. Gonçalo Ramos ocupou o lugar, marcou três vezes e Portugal venceu por 6-1.

Nos quartos de final, Ronaldo voltou a começar no banco.

Entrou durante a segunda parte, Portugal perdeu com Marrocos e foi eliminado.

A escolha de Santos tinha fundamento desportivo. O próprio treinador disse posteriormente que, colocado perante a mesma situação, voltaria a tomar a mesma decisão.

Mas houve uma consequência fora do campo.

Santos e Ronaldo deixaram de falar depois do Mundial.

A dimensão dessa rutura só se percebe conhecendo a relação anterior. Trabalharam juntos durante oito anos, conquistaram o Europeu de 2016 e a Liga das Nações de 2019 e o treinador descreveu posteriormente Cristiano como alguém que fora praticamente um filho dentro daquela relação profissional.

Uma decisão de equipa foi suficiente para interromper essa proximidade.

O Qatar interessa agora como precedente, não como origem do problema atual.

Mostrou até onde pode chegar o custo de reduzir o estatuto de Ronaldo quando a leitura que o jogador faz da própria posição não coincide com a decisão do treinador.

Roberto Martínez encontrou essa realidade em 2023 e escolheu um caminho diferente.

Recolocou Ronaldo no centro da Seleção.

Durante três anos, a pergunta sobre a continuidade do capitão foi respondida repetidamente através da forma, dos números físicos, do rendimento e da importância no grupo. Antes do Mundial de 2026, Martínez chegou a explicar que já não via o futebol moderno como uma divisão simples entre titulares e suplentes: com cinco substituições, existiam diferentes funções e momentos dentro do mesmo jogo.

Era precisamente o enquadramento que permitiria uma transição gradual.

Na prática, Ronaldo permaneceu uma figura central.

Quando o Mundial terminou e Martínez saiu, a questão passou para Jorge Jesus.

O novo selecionador encontrava um capitão quatro anos mais velho, mas também um homem que acabara de treinar no Al Nassr e com quem tinha uma relação profissional recente.

Ronaldo ponderou abandonar a Seleção após o Mundial. Conversas com a Federação e com Jesus contribuíram para a decisão de continuar.

Dias antes do início da Liga das Nações, Cristiano disse publicamente que estava disponível para aquilo que o treinador precisasse: começar, sair ou não jogar.

Em Oslo surgiu o primeiro teste real dessa declaração.

Ronaldo começou no banco, aqueceu e não entrou.

Portugal venceu.

O capitão dirigiu-se diretamente aos balneários.

A seguir houve uma conversa com Jesus e Pedro Proença antecipou a presença junto da equipa.

As situações de 2022 e 2026 não são iguais.

Fernando Santos estava num Mundial. Jorge Jesus está no início de uma Liga das Nações. Ronaldo tinha 37 anos no Qatar e tem agora 41. A relação entre treinador e jogador é diferente e não existe qualquer indicação de uma rutura equivalente à que aconteceu com Santos.

O precedente, porém, ajuda a formular a pergunta certa.

Porque é tão difícil transformar Ronaldo de titular estrutural em jogador sujeito às mesmas oscilações competitivas dos restantes?

Uma parte da resposta está no próprio percurso.

Durante cerca de duas décadas, Ronaldo construiu um estatuto em que jogar era praticamente o estado normal e não jogar uma decisão extraordinária.

O envelhecimento inverteu essa lógica mais depressa no corpo do que no estatuto.

Fernando Santos foi o primeiro a enfrentar frontalmente essa diferença e pagou um preço pessoal elevado.

Martínez geriu-a prolongando a centralidade.

Jesus acaba de voltar ao ponto em que o futebol pede uma decisão e a história de Ronaldo pede outra coisa.

O Qatar já tinha avisado que as duas dificilmente se separam sem conflito.