Liga Portugala Jornada08
9–12 de outubro de 2026

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O caso Manchester City explicado: o que ficou provado nas 115 acusações

A decisão deixou de ser apenas informação não oficial. Uma comissão independente concluiu que o City usou acordos comerciais fictícios para inflacionar receitas e reduzir custos em mais de 900 milhões de libras durante nove épocas. O clube rejeita as conclusões e vai recorrer.

O processo contra o Manchester City entrou numa fase completamente diferente. Durante anos discutiram-se suspeitas, acusações e documentos; agora existe uma decisão publicada por uma comissão independente que dá como provadas todas as acusações relacionadas com as violações financeiras mais graves e a maioria das relativas à falta de cooperação com a investigação. O conjunto do processo tornou-se conhecido como as «115 acusações», embora a decisão formal organize as infrações em diferentes grupos e subgrupos.

No centro do caso está a forma como o City apresentou receitas, custos e contratos comerciais entre 2009/10 e 2017/18. A comissão concluiu que o clube celebrou acordos fictícios com parceiros comerciais e utilizou outros mecanismos para fazer aparecer como receitas de patrocínio montantes que, na realidade, eram parcialmente financiados pelo próprio proprietário, o Abu Dhabi United Group. Foram também identificados esquemas destinados a registar custos inferiores aos efetivamente suportados, incluindo uma operação relacionada com os direitos de imagem dos jogadores.

O efeito financeiro encontrado pela comissão ultrapassa 900 milhões de libras. Segundo a decisão, estes mecanismos permitiram ao City apresentar receitas superiores e custos inferiores aos reais, criando uma imagem financeira que fazia o clube parecer compatível com os limites de despesa da Premier League e da UEFA. A comissão concluiu que, se os acordos tivessem sido refletidos integralmente nas contas, o Manchester City teria ultrapassado esses limites por uma margem substancial.

A decisão vai, portanto, muito além da ideia simplificada de que o City «gastou demasiado». O problema está na informação usada para demonstrar que podia gastar. A comissão considera que foram apresentadas contas incorretas, que o verdadeiro estado financeiro do clube foi ocultado de auditores e reguladores e que existiu uma intenção clara de contornar as regras. Durante os quatro anos da investigação, o City terá ainda violado repetidamente os deveres de cooperação e boa-fé, tendo a comissão concluído que houve esforços concertados para dificultar o trabalho da Premier League.

O clube rejeita frontalmente estas conclusões. O Manchester City declara-se inocente, afirma dispor de provas que sustentam a sua posição e considera que a decisão contém erros materiais de direito, princípio e facto. Já anunciou que utilizará as vias de recurso disponíveis.

É essa contestação que impede tratar o processo como definitivamente encerrado. A responsabilidade foi determinada nesta primeira decisão, mas o City ainda pode tentar revertê-la perante um painel de recurso. Também ainda não existe castigo: a sanção será decidida numa audiência separada.

Essa distinção é essencial para perceber o momento atual. Já não estamos perante 115 acusações à espera de resposta. Existe agora uma decisão que descreve um sistema de financiamento dissimulado, quantifica o efeito em mais de 900 milhões de libras e considera provadas violações sistemáticas durante quase uma década. O que falta saber é se essa decisão resistirá ao recurso e que consequência desportiva e financeira será considerada proporcional a infrações desta dimensão.