A crise que terminou com a saída de Duarte Gomes da Federação Portuguesa de Futebol começou com uma história contada depois dos jogos terem acontecido. Hélder Malheiro procurou o então Diretor Técnico Nacional e relatou-lhe uma videochamada realizada semanas antes por um antigo árbitro assistente internacional, já retirado, num grupo que partilhavam com outros antigos colegas.
Segundo o relato que chegou a Duarte, a conversa aconteceu no final da 30.ª jornada. O antigo assistente disse a Malheiro que não seria nomeado para a jornada seguinte, mas que fora indicado para dirigir o Moreirense-Estrela da Amadora da 32.ª jornada. Acrescentou ainda outro dado concreto: o Estrela da Amadora-Famalicão da jornada seguinte seria arbitrado por Fábio Veríssimo.
Não se tratava, na versão transmitida a Duarte, de uma previsão vaga sobre dois árbitros que poderiam entrar na rotação. Eram dois nomes associados a dois jogos determinados. Malheiro soube da sua futura nomeação com 11 dias de antecedência. A indicação sobre Fábio Veríssimo surgiu cerca de 20 dias antes. Quando chegou o momento das designações oficiais, ambas corresponderam à informação antecipada.
Duarte calcula que a probabilidade de acertar casualmente naquela combinação estaria entre 0,1 e 0,2 por cento. O número é uma estimativa apresentada pelo antigo diretor técnico, não uma demonstração sobre quem forneceu a informação. Mas explica por que razão Duarte deixou de aceitar a coincidência como resposta suficiente.
Há outro pormenor temporal importante. Duarte diz que não recebeu a denúncia antes do Moreirense-Estrela nem enquanto ainda poderia existir qualquer intervenção preventiva sobre aquela nomeação. Hélder Malheiro contou-lhe o episódio depois do campeonato, na semana anterior à final da Taça de Portugal. Duarte estava, portanto, a investigar retrospetivamente uma informação que já se confirmara no terreno.
A sensibilidade era evidente. As nomeações dos árbitros são reservadas até serem divulgadas oficialmente e os dois encontros envolviam o Estrela da Amadora numa fase decisiva da luta pela permanência. Saber antecipadamente quem vai arbitrar um jogo não demonstra que o árbitro esteja condicionado, mas coloca uma pergunta sobre a integridade do próprio processo de nomeação: quem tinha acesso a informação que ainda não devia circular e como essa informação saiu da estrutura?
O relato de Malheiro continha ainda uma segunda história. Na véspera do Moreirense-Estrela, o antigo árbitro assistente ter-lhe-á dito que existia a possibilidade de prolongar a carreira por mais uma época caso o Estrela vencesse o encontro. Malheiro encontrava-se no final do percurso no principal escalão e, segundo aquilo que contou a Duarte, Luciano Gonçalves teria dado aval à possibilidade.
Foi então que apareceu uma mensagem.
Duarte afirma ter recebido de Malheiro uma captura de ecrã de uma comunicação enviada por Luciano Gonçalves. O conteúdo incluía a expressão «sim, é verdade» e emojis associados a silêncio. Segundo Duarte, a mensagem foi eliminada pouco depois pelo remetente.
A questão decisiva passou a ser perceber exatamente o que Luciano estava a confirmar.
A explicação que Duarte diz ter recebido do presidente do Conselho de Arbitragem foi diferente da interpretação de Malheiro. Luciano terá relacionado a mensagem com uma eventual escolha do árbitro para a final da Taça de Portugal e não com a continuidade na carreira dependente do resultado do Estrela.
Duarte não ficou convencido. Segundo o antigo diretor técnico, não existira nas semanas anteriores uma conversa entre Luciano e Malheiro sobre a final, nem Malheiro teria perguntado se poderia dirigir o encontro do Jamor. Para Duarte, a sequência da conversa apontava noutra direção, embora reconheça que essa leitura não transforma a sua conclusão pessoal numa decisão judicial sobre o significado da mensagem.
Também é essencial separar este caso da atuação dos árbitros nos jogos. Duarte não acusa Hélder Malheiro nem Fábio Veríssimo de terem manipulado resultados, favorecido o Estrela ou participado numa combinação. Pelo contrário, insiste que considera os árbitros honestos, recorda que as avaliações das arbitragens foram boas e sublinha que o Estrela não venceu os encontros em causa.
O problema que levou Duarte a investigar estava a montante dos jogos. Duas nomeações reservadas foram antecipadas com grande precisão. Uma mensagem relacionada com a continuidade de um árbitro tinha interpretações incompatíveis. E a pessoa que dirigia tecnicamente a arbitragem queria saber como aquelas peças tinham chegado ali.
Foi quando tentou responder a essa pergunta que o caso deixou de ser apenas uma história sobre duas nomeações antecipadas.















