Portugal começou o ciclo de Jorge Jesus a ganhar, mas o 1-0 ao País de Gales não foi ainda a transformação que a mudança de selecionador fez esperar. Houve uma equipa mais solta durante parte da primeira metade, Nuno Mendes atacou sem medo e João Félix apareceu onde o jogo precisava de imaginação. Houve também longos períodos em que regressou aquela sensação conhecida: muito talento em campo, pouco ritmo para o tornar esmagador e uma vantagem mínima administrada sem verdadeira necessidade de acabar com o jogo.
Os primeiros minutos foram até uma história de erro e correção. Jesus preparou a pressão portuguesa para um adversário que esperava organizado com três médios. Gales apareceu de outra maneira, com um segundo avançado, e Portugal perdeu referências. Rúben Neves, Vitinha e João Félix demoraram a perceber quem deveriam pressionar e os galeses conseguiram jogar onde o selecionador português julgava ter fechado espaço.
Jesus percebeu o problema e mexeu sem substituir. Rúben Neves ajustou a posição, Portugal aproximou os jogadores e começou finalmente a empurrar Gales para trás. Foi então que surgiu a melhor fase da Seleção. Nuno Mendes rompeu pela esquerda, encontrou João Félix à entrada da área e o avançado marcou aos 22 minutos. Não foi apenas o golo: durante esse período Félix encontrou espaços entre linhas, Rúben Neves variou o jogo e Portugal mostrou uma velocidade que fazia acreditar numa equipa menos presa do que a do passado recente.
A promessa não durou toda a noite. Ronaldo procurou o golo e teve oportunidades, incluindo um lance anulado por fora de jogo, mas Portugal foi perdendo intensidade à medida que o encontro avançou. Bruno Fernandes participou pouco na criação e o próprio Jesus reconheceu que vários jogadores estiveram abaixo daquilo que podem dar. Na segunda parte, a equipa já não teve a mesma capacidade para aproximar jogadores e acelerar depois de recuperar a bola.
A vantagem defensiva existiu e merece ser reconhecida. Gales produziu muito pouco durante grande parte da partida, encontrou poucas situações de remate e foi obrigado a passar largos períodos longe da baliza portuguesa. Mas uma equipa que vence apenas por um golo continua vulnerável a um único erro. E esse momento chegou: já na segunda parte, os galeses conseguiram atacar a profundidade, a bola ultrapassou Diogo Costa e bateu na barra, antes de Rúben Dias impedir a recarga. Um jogo que Portugal parecia controlar esteve a centímetros de ficar empatado.
Jesus reagiu também fisicamente ao desgaste. Tirou Ronaldo para colocar Gonçalo Ramos e ganhar pressão na frente, lançou Palhinha quando Rúben Neves perdeu intensidade e acabou o encontro mais preocupado em conservar a estrutura do que em procurar uma segunda vaga ofensiva. Funcionou para ganhar. Ainda não chegou para distinguir esta Seleção de todas aquelas que, nos últimos anos, também acumularam vitórias sem transformar o enorme talento disponível numa equipa que imponha o jogo durante 90 minutos.
É demasiado cedo para dizer que nada mudou. Houve sinais concretos de outra ideia, sobretudo na liberdade de Nuno Mendes, na posição de Félix e na capacidade de Jesus corrigir um problema tático durante o encontro. Mas também é cedo para celebrar uma nova Seleção. A estreia deu três pontos e meia hora promissora. A mudança, essa, ainda precisa de durar mais do que meia hora.















