Liga Portugala Jornada08
9–12 de outubro de 2026

Jornadas

Navegação principal da época 2026/27.

A reunião terminou e os telefones tocaram: a sequência que agravou as dúvidas de Duarte Gomes

Duarte procurou Luciano Gonçalves três vezes para esclarecer o caso. Depois da primeira conversa privada, o antigo assistente envolvido no relato contactou Duarte e Hélder Malheiro quase de imediato.

Duarte Gomes recebeu a história das nomeações antecipadas com uma dúvida, não com uma conclusão. Conhecia Luciano Gonçalves há muitos anos, trabalhava diariamente com ele e diz que sempre o considerara uma pessoa séria. Por isso decidiu confrontá-lo diretamente e tentar encontrar uma explicação que permitisse continuar a trabalhar.

As diligências prolongaram-se durante cerca de um mês e incluíram três reuniões pessoais entre os dois. Duarte conta que apresentou a Luciano os elementos que Hélder Malheiro lhe transmitira, incluindo o conhecimento antecipado das nomeações e a mensagem relacionada com a eventual continuidade do árbitro.

Segundo Duarte, Luciano reagiu com surpresa. Negou ter revelado nomeações a qualquer dirigente, negou ter discutido árbitros com presidentes de clubes e garantiu que era ele próprio quem fazia as designações. Acrescentou uma explicação aparentemente incompatível com a própria hipótese de fuga: não preparava as nomeações futuras com aquela antecedência, pelo que, segundo a sua versão, não existiria sequer informação previamente fixada que pudesse ter sido retirada de um computador ou documento e transmitida ao exterior.

A primeira reunião terminou sem resolver a dúvida. O que aconteceu nos minutos seguintes tornou-a maior.

Duarte relata que, segundos depois de sair dessa conversa privada com Luciano, recebeu uma videochamada do antigo árbitro assistente referido por Hélder Malheiro. Era alguém com quem não falava há algum tempo. Duarte não atendeu e recebeu depois uma videomensagem.

O contacto podia, isoladamente, ser uma coincidência. Mas, segundo Duarte, quase imediatamente aconteceu outro. Dois ou três minutos depois, o mesmo antigo assistente ligou para Hélder Malheiro e mostrou saber que iria existir uma conversa entre o árbitro denunciante, Duarte e Luciano.

O relato que Malheiro transmitiu a Duarte continha ainda um elemento mais sensível: o interlocutor ter-lhe-á recomendado que pensasse bem na carreira e no futuro profissional.

Duarte não afirma ter presenciado essa segunda chamada e não a apresenta como prova criminal de uma ameaça. O que diz é que a sucessão de contactos lhe criou a convicção de que alguém estava a acompanhar quase em tempo real as diligências que fazia para esclarecer o caso. Para o Diretor Técnico Nacional, a informação sobre uma reunião privada parecia ter saído da esfera em que deveria ter permanecido.

As explicações prosseguiram, mas a confiança já estava a deteriorar-se. Duarte identifica depois dois acontecimentos que considera determinantes para decidir sair.

O primeiro envolve Paulo Lopo, então presidente da SAD do Estrela da Amadora. Duarte afirma que Luciano Gonçalves lhe comunicou que iria falar com o dirigente para tentar esclarecer o que estava a acontecer. Segundo a versão de Duarte, Luciano deslocou-se sozinho às instalações do clube e reuniu pessoalmente com Lopo, regressando depois com informação sobre a conversa.

Duarte considerou a forma da diligência inadequada. O problema, na sua leitura, não estava em um presidente do Conselho de Arbitragem poder falar institucionalmente com um dirigente de clube. Estava em procurar esclarecer suspeitas relacionadas com esse mesmo clube através de uma conversa a sós e sem o enquadramento formal que, para Duarte, a sensibilidade do caso exigia.

A segunda questão estava dentro do próprio Conselho de Arbitragem.

Duarte afirma que as conversas, os elementos recolhidos e os esclarecimentos decorreram sem que os três vice-presidentes tivessem conhecimento da situação. Foi ele quem decidiu falar pessoalmente com os restantes responsáveis e explicar-lhes por que estava a considerar a saída.

Segundo Duarte, os três ficaram surpreendidos. Um deles terá dito que iria procurar Luciano e, posteriormente, foi realizado um plenário do Conselho para abordar o tema. Duarte relata ainda ter-lhe chegado a informação de que Luciano reconheceu nessa reunião poder ter falado demasiado ou dito coisas que não devia, mantendo porém a negação de que tivesse fornecido nomes de árbitros a dirigentes.

Nenhum destes episódios, isoladamente, responde à pergunta sobre quem fez circular as nomeações. A relevância está na sequência que Duarte diz ter observado: informação reservada conhecida antecipadamente, uma mensagem com significado contestado, contactos quase imediatos depois de uma reunião privada, uma diligência junto do clube envolvido realizada de uma forma que considerou imprópria e um Conselho de Arbitragem cujos restantes membros não conheciam o que estava a ser discutido.

Duarte entrou nas reuniões à procura de uma explicação que lhe permitisse continuar. Saiu delas com a convicção oposta. A dúvida sobre duas nomeações transformara-se numa crise de confiança sobre a forma como a própria estrutura estava a lidar com o problema.