A arbitragem do FC Porto-Manchester City ficou concentrada em dois episódios da primeira parte e a discussão sobre ambos exige separar três coisas que facilmente se confundem: aquilo que Szymon Marciniak decidiu no relvado, a gravidade técnica de cada ação e aquilo que o VAR estava regulamentarmente autorizado a corrigir.
O lance mais sério aconteceu perto do intervalo. Marc Guéhi entrou numa disputa aérea com Gabri Veiga e o braço do defesa do Manchester City atingiu a face do médio portista, que caiu com um corte e teve de receber assistência. Marciniak não mostrou cartão e a equipa de arbitragem de vídeo não recomendou uma revisão.
O contacto existe e foi suficientemente forte para deixar Gabri a sangrar.
O sangue, porém, não decide a sanção.
As Leis do Jogo estabelecem que uma disputa pela bola deve terminar em vermelho quando utiliza força excessiva ou coloca em risco a integridade do adversário. Se não existir verdadeira disputa da bola e um jogador atingir deliberadamente a cabeça ou a face com a mão ou o braço, a ação pode entrar no domínio da conduta violenta.
As imagens disponíveis não tornam inequívoca essa segunda situação. Guéhi está efetivamente numa disputa aérea e não há base segura para afirmar que procurou deliberadamente atingir Gabri com o cotovelo.
Isso não significa que Marciniak tenha resolvido bem o lance.
O uso do braço e o contacto na cabeça justificavam que a ação fosse sancionada disciplinarmente. A leitura mais defensável passa por falta e cartão amarelo por uma entrada imprudente na disputa aérea; transformar automaticamente a consequência física numa expulsão iria mais longe do que as imagens permitem demonstrar.
O VAR não podia chamar o árbitro apenas para mostrar esse amarelo.
Só poderia intervir se entendesse que Marciniak falhara uma expulsão direta clara.
É precisamente essa fronteira que explica por que a ausência de revisão não equivale a uma certificação de que a ação foi bem julgada.
O segundo protesto portista envolve Gvardiol. O croata já tinha sido advertido depois de travar William Gomes e envolver-se na sequência do lance. Pouco antes do intervalo, o FC Porto reclamou nova sanção disciplinar e Farioli viria depois a defender publicamente que havia matéria para um segundo amarelo.
Aqui existe uma distinção regulamentar importante.
O VAR pode intervir em determinadas situações relacionadas com uma segunda advertência mostrada erradamente e que produz uma expulsão. Não pode, porém, chamar o árbitro apenas para criar uma segunda advertência que ficou por mostrar numa ação que não configura vermelho direto.
Portanto, mesmo que se conclua que Gvardiol merecia novo amarelo, a responsabilidade pertence à equipa de arbitragem em campo.
Não ao VAR.
Para existir intervenção de vídeo teria de estar em causa uma ação que, isoladamente, justificasse expulsão direta.
O jogo acabou por entrar no intervalo com jogadores e elementos das duas equipas ainda a discutir as decisões e a tensão prolongou-se no túnel.
Nada disso altera a avaliação dos lances.
Guéhi devia ter sido sancionado no duelo com Gabri Veiga, mas o vermelho direto não é uma conclusão suficientemente inequívoca para considerar obrigatória a intervenção do VAR.
No caso de Gvardiol, o FC Porto podia legitimamente discutir com Marciniak a eventual segunda advertência.
Não podia exigir ao VAR que mostrasse um cartão que o árbitro não mostrou.















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