A Federação Espanhola de Futebol decidiu financiar a congelação de óvulos de jogadoras internacionais e árbitras e abriu, ao mesmo tempo, uma discussão mais difícil do que a medida sugere à primeira vista: se está a aumentar a liberdade das atletas para escolher quando querem ser mães ou a adaptar a maternidade às exigências de uma carreira desportiva.
Poderão beneficiar as futebolistas convocadas pelo menos duas vezes para as seleções espanholas de futebol e futsal, assim como árbitras principais e assistentes da primeira divisão. A RFEF apresenta a iniciativa como uma forma de conciliar alto rendimento e projeto familiar numa profissão em que os anos decisivos da carreira coincidem frequentemente com a fase de maior fertilidade.
Alexia Putellas está entre quem vê a decisão como um avanço. A internacional espanhola sublinha que uma futebolista coloca durante anos o corpo ao serviço da profissão e da seleção, o que pode tornar particularmente difícil compatibilizar grandes competições com o desejo de ser mãe. Patri Guijarro segue a mesma linha: quanto mais opções existirem, maior será a capacidade de cada mulher decidir quando e como pretende ter filhos.
A contestação não está dirigida à existência dessa possibilidade, mas àquilo que a instituição deve considerar verdadeira conciliação.
Ana Peleteiro, campeã europeia do triplo salto e mãe durante a carreira, questionou frontalmente a ideia de apresentar a congelação como uma medida feminista. Para a atleta, a prioridade deveria ser garantir que uma mulher pode ser mãe sem sofrer uma penalização profissional, em vez de tornar mais fácil adiar a maternidade até deixar de competir.
Ona Carbonell levantou uma dúvida semelhante. A antiga nadadora considera que adiar não é necessariamente conciliar e defende melhores condições para que a maternidade seja possível durante a vida desportiva. Eva Moral vê valor económico na medida, mas alerta para o risco de esta se transformar, mesmo implicitamente, numa pressão para não engravidar enquanto a atleta estiver em competição.
É essa tensão que torna a iniciativa relevante.
A possibilidade de congelar óvulos pode ampliar escolhas.
Só não pode tornar-se na única resposta para um sistema que continua a ter dificuldade em acomodar mulheres que escolhem ser mães antes de terminar a carreira.















