O empate na Reboleira não foi tratado no Sporting como um simples acidente de primeira jornada. Rui Borges reconheceu 70 minutos de qualidade, mas recusou desculpabilizar a quebra que permitiu ao Estrela da Amadora recuperar de 0-2 para 2-2. Os adeptos responderam com assobios e contestação, Issa Doumbia pediu união e o treinador deixou a mensagem mais dura da noite: «Temos de fazer muito mais».
O Sporting parecia ter encaminhado a estreia na Liga quando Rodrigo Zalazar e Fotis Ioannidis construíram uma vantagem de dois golos. Mas Antonetti reduziu aos 72 minutos, Beni Souza empatou aos 84 e Rui Silva ainda teve de impedir, pouco depois, que o Estrela completasse a reviravolta.
Rui Borges separou claramente as duas partes da exibição. Viu uma equipa forte durante cerca de 70 minutos e outra muito mais insegura depois do primeiro golo do adversário. A partir do 1-2, considerou que o Sporting começou a duvidar do próprio jogo, permitiu ao Estrela crescer e acabou por pagar essa perda de controlo.
«Que sirva de aviso a todos», afirmou o treinador, deixando claro que uma equipa que pretende disputar títulos não pode limitar a sua competitividade a uma parte do encontro.
A crítica foi particularmente concreta no lance do primeiro golo do Estrela. Rui Borges atribuiu a Eduardo Quaresma um erro na jogada, entendendo que o defesa não poderia ter interrompido a ação. O treinador não apagou a boa exibição que o central vinha realizando, mas utilizou o episódio para ilustrar aquilo que considera incompatível com a exigência do Sporting: um momento mal resolvido pode alterar por completo um jogo aparentemente controlado.
Também os jogadores lançados a partir do banco não ficaram fora da análise. Rui Borges esperava que as substituições acrescentassem capacidade para controlar a vantagem e considerou que quem entrou deveria ter ajudado mais a equipa numa fase em que o Estrela ganhava confiança.
Em sentido contrário, o técnico valorizou alguns dos sinais positivos da estreia. Rodrigo Dias e Flávio Gonçalves justificaram, na sua leitura, a presença no onze através do trabalho que vinham realizando e responderam com boas prestações. Sergi Altimira mereceu igualmente elogios pelo equilíbrio, pela tranquilidade com bola e pela capacidade de recuperação.
Rui Borges destacou ainda a ligação em construção entre Geny Catamo e Rodrigo Zalazar, admitindo que os automatismos deverão crescer à medida que os jogadores se conhecerem melhor. Zalazar acabou por ser uma das figuras ofensivas do Sporting, com um golo e uma assistência para Ioannidis.
Mas nenhuma apreciação individual alterou o tom global da reação. Para o treinador, quem representa o Sporting conhece uma realidade incontornável: «a margem de erro é pouca ou nenhuma». A luta pelos títulos traz pressão desde o primeiro jogo e a insatisfação dos adeptos quando a equipa deixa fugir uma vantagem faz parte dessa exigência.
Essa insatisfação ouviu-se imediatamente na Reboleira.
Depois do apito final de João Gonçalves, Rui Borges dirigiu-se à equipa de arbitragem e passou posteriormente por vários jogadores, visivelmente cabisbaixos. Ao contrário do que sucedera noutros encontros, não foi cumprimentando os atletas nesse percurso, num reflexo da frustração deixada pelos minutos finais.
Quando jogadores, equipa técnica e restante staff se aproximaram da bancada destinada aos sportinguistas, os assobios começaram a ganhar força. O habitual momento de comunhão com os grupos organizados de adeptos não apagou a contestação.
Depois do haka, ouviu-se das bancadas um cântico associado precisamente aos momentos em que a exigência dos adeptos sobe de tom: «Quando os rapazes de verde e branco entram em campo é para ganhar, não tenham medo, joguem à bola que a camisola é para suar.»
A mensagem das bancadas encontrou, horas depois, uma resposta mais conciliadora dentro do plantel.
Issa Doumbia, titular na estreia na Liga pelo Sporting, assumiu a desilusão com o resultado, mas procurou impedir que o tropeço se transformasse num problema maior. «É pena o resultado... mas um empate não nos vai parar: cabeça erguida, todos unidos e vamos continuar a lutar. Vamos dar a volta, tenho a certeza! Força, leões!», escreveu o médio.
A reação tem também peso particular por partir de um dos reforços mais importantes da época. Contratado ao Veneza por 20,5 milhões de euros, valor que poderá aumentar em seis milhões mediante objetivos, Doumbia entrou diretamente nas opções de Rui Borges e já tinha sido publicamente elogiado pelo treinador pela capacidade de aprender, adaptar-se e perceber a dimensão da exigência leonina.
Na manhã seguinte, o Sporting regressou ao trabalho em Alcochete. Os titulares fizeram recuperação e os jogadores não utilizados ou com poucos minutos enfrentaram o Mafra num particular de duas partes de 30 minutos. Os leões venceram por 3-1, com golos de Rafael Nel, Luis Suárez e Jesse Derry.
Não apaga os dois pontos deixados na Reboleira, nem era esse o objetivo. O verdadeiro significado das reações ficou definido ainda na noite anterior: o empate não criou uma crise, mas retirou qualquer espaço para complacência.
Rui Borges cobrou os jogadores, Doumbia pediu união e os adeptos lembraram das bancadas aquilo que esperam de uma equipa candidata ao título. O Sporting saiu da primeira jornada com um ponto e com um aviso coletivo muito mais ruidoso do que o resultado, por si só, poderia sugerir: estar a ganhar 2-0 não basta. É preciso saber terminar o jogo.















