Durante uma década, Gianni Infantino construiu uma presidência capaz de atravessar polémicas sem perder o centro do poder. A crise da FIFA Forward Enterprise mudou essa lógica. Pela primeira vez desde que assumiu a FIFA, em 2016, a contestação não se limita a adversários ocasionais: envolve grandes confederações, federações nacionais, antigos colaboradores e figuras que durante anos fizeram parte da arquitetura institucional em redor do presidente.
Tudo começou formalmente a 28 de julho, poucos dias depois do Mundial de 2026. A FIFA apresentou uma proposta ambiciosa: criar a FIFA Forward Enterprise, uma subsidiária que reuniria os direitos comerciais e a operação dos torneios da organização, incluindo televisão, patrocínios, licenciamento, bilhética e hospitalidade.
A ideia tinha uma dimensão financeira sem precedentes. A nova empresa seria avaliada em 20 mil milhões de dólares e poderia captar até 4,2 mil milhões através da entrada de investidores privados com participações minoritárias e sem controlo.
A FIFA insistiu desde o início numa distinção fundamental: o Campeonato do Mundo não estava à venda. Os investidores não teriam voto no Congresso, influência no Conselho nem poder sobre formatos das competições, calendário ou decisões desportivas. O controlo permaneceria na própria FIFA.
Havia também um argumento poderoso para conquistar as 211 federações. O dinheiro permitiria aumentar fortemente o financiamento destinado ao desenvolvimento. Para o ciclo entre 2027 e 2030, o valor do programa Forward poderia subir dos oito milhões de dólares atualmente previstos para 20 milhões por federação, existindo ainda a possibilidade de outros 20 milhões para projetos extraordinários de infraestruturas. No horizonte apresentado pela FIFA, o investimento global em desenvolvimento ultrapassaria 10 mil milhões de dólares.
Financeiramente, a proposta prometia transformar recursos comerciais futuros em dinheiro disponível para desenvolver futebol no presente. Politicamente, foi aí que começou o problema.
Confederações e dirigentes disseram não ter sido adequadamente envolvidos numa decisão que mexia com o principal património comercial da FIFA. A discussão deixou de ser apenas sobre se vender uma participação minoritária seria um bom negócio. Passou a ser sobre quem tinha autoridade para preparar uma alteração daquela dimensão e até onde poderia avançar antes de consultar verdadeiramente o futebol que representa.
A primeira fratura importante veio de dentro. Carlos Cordeiro, conselheiro sénior de Infantino e antigo presidente da Federação norte-americana, demitiu-se. Disse não ter participado na elaboração da proposta e classificou a operação como um mau negócio para a FIFA e para o futebol, questionando a necessidade de captar milhares de milhões através daquele instrumento.
A FIFPRO pediu transparência e participação efetiva das partes interessadas. Arsène Wenger, uma das figuras mais reconhecidas da estrutura da FIFA, tornou pública a sua distância em relação ao processo. Luís Figo foi ainda mais longe e defendeu a saída de Infantino.
O projeto não resistiu à pressão. Em poucos dias, aquilo que fora apresentado como uma grande aceleração do desenvolvimento mundial deixou de estar em cima da mesa nos termos propostos. A FIFA reconheceu falhas no processo, Infantino pediu desculpa pelos erros cometidos e foi prometida uma revisão.
Mas retirar a proposta já não era suficiente para retirar a crise.
UEFA, Confederação Asiática e CONCACAF passaram a atuar em conjunto. As três estruturas representam 136 das 211 federações filiadas na FIFA e acusaram Infantino de quebrar a confiança através de uma condução unilateral do processo. Exigem uma análise verdadeiramente independente ao que aconteceu e garantias vinculativas de que uma operação semelhante não poderá voltar a avançar da mesma forma.
A contestação chegou ao ponto de serem admitidos boicotes a competições da FIFA e de começarem conversas sobre modelos alternativos de governação e até novas competições entre confederações. Já não se discute apenas uma empresa comercial. Discute-se a distribuição do poder no futebol mundial.
A FIFA respondeu politicamente.
Depois de uma reunião de crise em Marrocos, a direção apresentou uma imagem de unidade em torno do presidente. A Confederação Africana, com 54 federações, manifestou apoio a Infantino, e outras associações de diferentes regiões fizeram o mesmo. A organização denunciou aquilo que considera um «esforço concertado e contínuo» para enfraquecer a FIFA e o seu presidente e deixou um aviso: qualquer mudança de liderança terá de respeitar os estatutos e os mecanismos eleitorais.
É esta divisão que impede uma leitura simplista da crise. Infantino perdeu confiança em zonas poderosas do futebol, sobretudo na Europa e entre dirigentes que contestam o seu método de governação. Mas não perdeu o poder. A arquitetura eleitoral da FIFA dá exatamente um voto a cada federação, seja ela uma potência mundial ou uma pequena associação, e os programas de desenvolvimento construídos durante a sua presidência deram-lhe uma extensa rede de apoios.
O próximo momento decisivo já tem data. O Congresso eleitoral está marcado para 18 de março de 2027, em Rabat, e Infantino anunciou a intenção de voltar a candidatar-se.
Ainda não existe um adversário formal capaz de agregar a contestação. Victor Montagliani, Aleksander Ceferin e outras figuras são discutidas como alternativas possíveis, mas a distância entre criticar um presidente e construir uma maioria mundial para o derrotar continua enorme.
É por isso que esta pode ser a crise mais séria da era Infantino sem ser necessariamente o seu fim.
A Forward Enterprise caiu. A ideia de que o presidente é politicamente inevitável caiu com ela. De um lado está uma coligação que exige outra governação e admite medidas de rutura; do outro continua uma vasta rede de federações que vê na FIFA de Infantino financiamento, influência e oportunidades que antes não possuía.
A próxima eleição deixou de parecer uma formalidade. E essa talvez seja a consequência mais profunda de um negócio que nunca chegou a existir: a tentativa de transformar comercialmente a FIFA acabou por abrir uma discussão sobre quem deve governá-la.
