Uma pré-época não atribui pontos, não elimina adversários e muito menos antecipa uma classificação. Equipas diferentes trabalham com cargas diferentes, encontram adversários de níveis distintos e chegam aos jogos em momentos físicos que tornam qualquer comparação imperfeita. Feita essa ressalva, houve uma equipa portuguesa que deixou o verão com uma mensagem numérica difícil de ignorar: o Sporting.
Os leões começaram a preparar 2026/27 com duas feridas ainda recentes.
Tinham terminado o campeonato anterior no segundo lugar, com 82 pontos, seis atrás do FC Porto, e fecharam a época com uma derrota particularmente dolorosa no Jamor. O Torreense, então equipa da II Liga, venceu a final da Taça de Portugal por 2-1 após prolongamento. Rui Borges reconheceu nessa noite que o Sporting não tinha sido capaz de mostrar a intensidade e a iniciativa que pretendia.
Foi desse ponto que começou a reconstrução.
O plantel regressou ao trabalho a 1 de julho, na Academia Cristiano Ronaldo. A preparação incluiu um estágio no Algarve entre 11 e 20 de julho e um calendário pensado para aumentar progressivamente a exigência, misturando jogos de treino fechados com adversários de campeonatos europeus relevantes.
O primeiro sinal teve até um valor simbólico. Num jogo-treino em Alcochete, o Sporting voltou a encontrar o Torreense e venceu por 2-0. Não devolvia a Taça perdida nem tinha qualquer importância competitiva, mas permitia começar a trabalhar sobre a memória do último fracasso.
A primeira exposição pública chegou a 14 de julho, frente ao Celtic, campeão escocês. O Sporting ganhou por 4-1 no Estádio Algarve. Geny Catamo abriu o marcador, Daniel Bragança bisou e Ricardo Mangas também marcou. Mais importante do que o resultado, a equipa mostrou velocidade na circulação, capacidade para pressionar e soluções provenientes de diferentes zonas do campo.
Seis dias depois, Rui Borges dividiu recursos num dia particularmente intenso. De manhã, o Sporting venceu o Portimonense por 1-0. À noite, perante o Strasbourg, oitavo classificado da Ligue 1 e semifinalista da Conference League na época anterior, surgiu o resultado mais expressivo de toda a preparação: 7-0.
A goleada serviu também para mostrar como o plantel estava a mudar. Issa Doumbia e Sergi Altimira marcaram na primeira parte; Silas Andersen, Rodrigo Zalazar, Maxi Araújo, Geny Catamo e Fotis Ioannidis completaram o resultado. Caras novas e jogadores já integrados apareceram no mesmo jogo, dando a Rui Borges alternativas que iam muito além de um onze.
O treinador não escondia a satisfação. Falava de uma pré-época «muito boa, em todos os sentidos», sobretudo pela energia, pela exigência interna e pela quantidade de jogadores a tentar provar que podiam ser solução. Mas fazia também uma ressalva importante: a equipa estava longe de ser perfeita e ainda tinha muito para crescer coletivamente.
O teste seguinte confirmou essa tendência sem a transformar numa certeza.
A 25 de julho, quase 40 mil adeptos regressaram a Alvalade para o Troféu Cinco Violinos. O Monaco aumentou o grau de dificuldade, mas o Sporting voltou a não sofrer e venceu por 2-0. Rafael Nel e Jesse Derry marcaram na segunda parte, dois jovens a materializarem outro dos sinais positivos do verão: a possibilidade de a profundidade não depender apenas de contratações estabelecidas.
A preparação terminou com o mesmo padrão geral e o balanço acumulado chegou às sete vitórias em sete jogos, 24 golos marcados e apenas dois sofridos.
É um registo impressionante. Não é uma previsão.
Comparar pré-épocas como se fossem campeonatos seria metodologicamente errado. O valor dos adversários varia, a rotação muda de jogo para jogo, há equipas que acumulam cargas físicas antes de um particular e outras que aliviam precisamente para esse encontro. Há treinadores interessados no resultado e outros sobretudo interessados em testar comportamentos.
O que os números do Sporting permitiam dizer era diferente: nenhum sinal de verão aconselhava preocupação imediata. A equipa marcava muito, sofria pouco, os reforços apareciam, os jovens respondiam e Rui Borges tinha concorrência por lugares em praticamente todos os setores.
Depois chegou o futebol que conta.
Na primeira jornada da Liga, na Reboleira, o Sporting chegou aos 59 minutos a vencer o Estrela da Amadora por 2-0, com golos de Rodrigo Zalazar e Fotis Ioannidis. Parecia transportar para a competição a segurança da preparação. Não transportou.
Antonetti reduziu aos 72 minutos, Beni Souza empatou aos 84 e Rui Silva ainda teve de impedir a reviravolta. O 2-2 expôs num único quarto de hora aquilo que sete vitórias de preparação não tinham sido obrigadas a testar: a capacidade de controlar emocionalmente e coletivamente um jogo oficial quando o adversário consegue reentrar na discussão do resultado.
Não invalida a pré-época. Coloca-a no lugar certo.
O verão mostrou que Rui Borges tinha matéria-prima, intensidade, soluções e uma equipa capaz de produzir futebol ofensivo. A Reboleira mostrou que nenhuma dessas qualidades dispensa maturidade competitiva.
É essa a imagem completa da preparação leonina. O Sporting chegou ao campeonato com os melhores números do verão e razões objetivas para confiança. Mas o primeiro jogo oficial tratou de lembrar a regra que torna o futebol menos previsível do que qualquer balanço de julho: uma equipa pode preparar-se muito bem para uma época sem estar ainda pronta para tudo o que a época lhe vai exigir.
