Keegan Swirbul decidiu falar publicamente sobre o passado recente do doping no ciclismo português e colocou no mesmo vídeo sanções comprovadas, críticas às equipas e suspeitas pessoais que exigem tratamentos jornalísticos diferentes. O norte-americano da Efapel questiona a facilidade com que considera que a modalidade reintegrou alguns protagonistas, mas não apresenta provas de novas infrações por parte dos corredores que já cumpriram as respetivas penas.
José Neves é um dos exemplos escolhidos.
O antigo corredor da W52-FC Porto cumpriu uma sanção por violações das regras antidopagem e regressou posteriormente à competição profissional.
Swirbul reconhece esse direito, mas questiona a opção de uma equipa voltar a contratá-lo e sugere que uma infração anterior torna legítima a desconfiança em relação ao futuro.
Essa é uma opinião.
Não existe no vídeo qualquer resultado analítico ou processo disciplinar novo contra Neves que permita apresentar essa desconfiança como facto.
António Carvalho encontra-se numa situação diferente.
O ex-Feirense foi suspenso por quatro anos devido a anomalias no passaporte biológico. Swirbul desenvolve a partir desse caso uma teoria sobre corticosteroides e Autorizações de Utilização Terapêutica, chegando a afirmar que observa abuso dessas possibilidades em Portugal.
Não fornece, porém, elementos que sustentem a generalização a outros corredores ou equipas.
Frederico Figueiredo introduz ainda outra complexidade.
Swirbul critica o facto de o corredor ter continuado a competir durante parte do processo relacionado com irregularidades no passaporte biológico e dirige a censura também à estrutura que o manteve em competição.
No final, estende a especulação a Tadej Pogacar e admite hipoteticamente formas de doping que estariam para além da capacidade atual de deteção.
Também aí não apresenta prova contra o esloveno.
O valor jornalístico do vídeo está noutro lugar.
Um corredor do atual pelotão português decidiu questionar abertamente a cultura de reintegração, a responsabilidade das equipas e o dano reputacional produzido por anos de casos antidopagem.
É uma discussão legítima.
Para continuar legítima, precisa de conservar a fronteira entre aquilo que foi demonstrado e aquilo que alguém suspeita.















