O Real Madrid abriu um processo interno a Raúl Asencio depois de o defesa ter sido condenado por conduzir sob o efeito do álcool, e José Mourinho estabeleceu uma fronteira clara entre aquilo que reconhece ao jogador no trabalho diário e o comportamento que exige a quem representa o clube fora dele.
«Não estou feliz. Erros todos cometemos, mas erros acumulados são diferentes.»
A posição do treinador surgiu na antevisão da deslocação ao terreno do Betis e foi acompanhada pela confirmação de que o caso está agora também a ser tratado internamente pelo Real Madrid.
Asencio foi intercetado nas Canárias com uma taxa de álcool de 0,90 miligramas por litro de ar expirado e acabou condenado a pagar uma multa de 14.400 euros e a oito meses de inibição de conduzir.
Mourinho não tentou relativizar o episódio através do rendimento desportivo.
Pelo contrário, separou as duas dimensões.
Dentro de Valdebebas, descreveu Asencio como um profissional exemplar. Recordou que, quando estava disponível, era dos jogadores que mais e melhor trabalhavam e que agora, durante a recuperação de uma lesão, continua a ser o primeiro a chegar e o último a sair.
Fora do centro de treinos, a exigência é outra porque, para Mourinho, a representação do Real Madrid não termina quando acaba o treino.
«Um jogador do Real Madrid é jogador do Real Madrid 24 horas por dia, sete dias por semana e 12 meses por ano.»
É nesse princípio que enquadra a preocupação institucional. O comportamento privado de um futebolista continua a poder atingir a imagem do clube que representa, sobretudo quando deixa o plano estritamente pessoal e produz consequências judiciais.
Mourinho explicou que já tinha conversado com Asencio quando regressou ao Real Madrid sobre situações anteriores, mas não revelou o conteúdo dessas conversas nem associou concretamente a expressão «erros acumulados» a outros episódios.
Enquanto o processo interno estiver aberto, mantém a posição formal: Asencio continua a ser jogador do Real Madrid.
A própria lesão afasta, para já, qualquer decisão desportiva imediata. O central deverá permanecer indisponível durante pelo menos mais algumas semanas, permitindo ao clube separar a recuperação física da avaliação disciplinar.
Na mesma conferência, Mourinho utilizou o passado para assumir um erro seu.
O reencontro com Manuel Pellegrini levou o português a recordar declarações feitas há vários anos sobre o treinador chileno, a quem sucedeu no Real Madrid em 2010.
«Tive algum comentário muito estúpido, do qual não me orgulho.»
A relação entre ambos mudou entretanto. Mourinho recordou um particular entre Roma e Betis em que a sua equipa terminou com apenas sete jogadores e Pellegrini pediu aos próprios futebolistas que não procurassem aumentar de forma desnecessária uma vantagem já confortável.
Hoje define-o como «um grande treinador» e «um exemplo como pessoa» e garante que haverá um abraço antes e depois do encontro desta sexta-feira.
Entre Asencio e Pellegrini, a conferência acabou por juntar duas formas diferentes de Mourinho olhar para o erro.
Para o seu próprio passado, reconheceu-o.
Para um jogador que agora representa o Real Madrid, estabeleceu o limite: errar pode acontecer; acumular erros passa a ser outra questão.















