José Mourinho encontrou no próprio passado recente a explicação para uma das primeiras alterações individuais introduzidas no Real Madrid. O treinador deixou de querer Jude Bellingham a abandonar repetidamente o centro para defender junto ao lateral-esquerdo porque, quando estava no Benfica, tinha identificado precisamente esse movimento como uma vulnerabilidade a explorar.
«No Benfica explorámos muitíssimo essa situação», recordou Mourinho depois da vitória por 4-0 sobre o Málaga, na terceira jornada da Liga espanhola.
A memória transformou-se agora em instrução. Mourinho acordou com Bellingham uma organização diferente: o médio continua a participar defensivamente, mas deixa de ser arrastado com tanta frequência para zonas exteriores e conserva uma posição a partir da qual pode influenciar mais rapidamente o jogo quando o Real recupera a bola.
O efeito começa a ser visível. Bellingham marcou o primeiro golo frente ao Málaga e participou no lance que terminou no segundo, antes de Mbappé e Arda Güler completarem a goleada. O próprio inglês reconheceu depois que atua agora «um pouco mais livre», podendo aproximar-se ou afastar-se da área de acordo com aquilo que a equipa necessita.
Mourinho não apresentou a mudança como uma dispensa de responsabilidades defensivas. Pelo contrário. O treinador usou o encontro para elogiar Vinícius pela reação à perda de bola e insistiu na ideia de equipa como bloco.
A diferença está no lugar onde cada jogador cumpre essa responsabilidade.
O Real começou o campeonato com três vitórias consecutivas, mas Mourinho aproveitou mesmo uma goleada para prevenir aquilo que costuma acompanhar os arranques perfeitos. Recordou a experiência no Benfica, onde terminou sem derrotas sob o seu comando mas não alcançou a posição desejada, para relativizar conclusões retiradas demasiado cedo.
A capacidade para definir aquilo que quer dos jogadores cruza-se curiosamente com outro retrato de Mourinho que chegou ao público neste mês.
A Netflix estreou a 11 de agosto «MOURINHO», documentário de três episódios filmado durante dois anos e construído a partir de mais de 20 horas de conversas com o treinador, familiares, antigos jogadores, treinadores e dirigentes.
Miles Coleman, um dos produtores, explica que o objetivo nunca foi forçar Mourinho a expor emocionalmente aquilo que prefere proteger. «Nunca quisemos colocar uma câmara à frente dele para ver as lágrimas», afirmou, defendendo que era mais interessante perceber a razão pela qual o treinador não quer chorar diante do público.
Nem todos os limites desapareceram. Mourinho falou de conflitos profissionais, antigos jogadores e episódios controversos, mas fechou-se quando a conversa chegou à morte do pai. Pep Guardiola, por outro lado, não participou: pediu que o convite partisse pessoalmente de Mourinho e esse convite não chegou.
O documentário procura perceber onde termina o treinador e começa o homem. A resposta permanece incompleta, em parte porque Mourinho continua a fazer fora do campo aquilo que faz dentro dele: escolhe os espaços que quer ocupar.
Com Bellingham, escolheu agora outro.















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