Keegan Swirbul, ciclista norte-americano da Efapel, colocou novamente o doping no centro da discussão sobre o pelotão português ao publicar um longo vídeo em que revisita casos disciplinares recentes, critica o regresso à competição de corredores sancionados e questiona as decisões tomadas por equipas que voltaram a contratá-los.
O vídeo ganhou particular repercussão por surgir a partir de dentro do próprio pelotão. Swirbul, de 30 anos, acabava de vencer a segunda etapa e a classificação geral do GP Douro Internacional quando decidiu abordar publicamente um tema habitualmente tratado com maior reserva entre corredores.
Há, porém, uma distinção indispensável entre os factos disciplinares conhecidos e as conclusões pessoais apresentadas pelo norte-americano.
José Neves cumpriu uma suspensão de três anos aplicada pela Autoridade Antidopagem de Portugal por posse de substância proibida e método proibido no âmbito do processo que atingiu a W52-FC Porto. Regressou depois de cumprir a sanção e voltou este ano ao pelotão profissional, terminando a Volta a Portugal entre os primeiros classificados.
Swirbul reconhece explicitamente que Neves tem direito a competir depois de cumprido o castigo. A sua crítica dirige-se à decisão de uma equipa voltar a contratá-lo e à confiança que considera difícil reconstruir depois de uma infração antidopagem.
Essa é uma opinião do ciclista, não uma nova acusação sustentada por qualquer resultado analítico.
A situação de António Carvalho é diferente porque a sanção permanece em vigor. A União Ciclista Internacional confirmou uma suspensão de quatro anos, entre 4 de novembro de 2025 e 3 de novembro de 2029, por violação das regras antidopagem relacionada com anomalias inexplicadas no passaporte biológico registadas em 2018, 2023 e 2024.
Foi sobre este caso que Swirbul desenvolveu as críticas mais amplas ao recurso a corticosteroides e às Autorizações de Utilização Terapêutica. Quando afirma existir abuso destas possibilidades no ciclismo português, contudo, apresenta a sua perceção pessoal. Não fornece dados que permitam generalizar essa conclusão ao pelotão nacional.
Frederico Figueiredo exige ainda outra distinção jurídica. O corredor tinha sido sancionado com seis anos por anomalias no passaporte biológico, mas o Tribunal Arbitral do Desporto revogou essa suspensão em julho de 2026 através da aplicação da lei de amnistia associada à Jornada Mundial da Juventude. A revogação resultou desse enquadramento jurídico e não de uma conclusão pública de inexistência das anomalias que originaram o processo.
Swirbul questiona também a forma como corredores puderam continuar em competição enquanto processos estavam em curso e alarga a crítica à responsabilidade das equipas.
É precisamente aí que o vídeo deixa de ser apenas uma revisão de casos individuais e toca numa ferida maior do ciclismo português.
A Operação Prova Limpa levou ao colapso da W52-FC Porto em 2022 e desembocou posteriormente num processo criminal que condenou antigos responsáveis e corredores. Nuno Ribeiro e outros arguidos recorreram entretanto das decisões judiciais.
O mérito da intervenção de Swirbul não está, por isso, em provar novos casos de doping. Não os prova.
Está em obrigar o pelotão a discutir uma questão que permanece depois das suspensões terminarem: que responsabilidade têm equipas, dirigentes e corredores na reconstrução de credibilidade de uma modalidade marcada por sucessivos processos?
Essa discussão pode ser legítima sem transformar suspeita em prova.















